O basquetebol é para todos?

Recentemente foram publicadas, na imprensa portuguesa, as conclusões de um estudo do Observatório da Actividade Física e do Desporto sobre a actividade física desenvolvida no nosso país. Assim, de acordo com aquele estudo, as crianças e os adolescentes (entre os 10 e os 17 anos) portugueses têm uma actividade física muito inferior ao recomendado para esta faixa etária (diariamente 60 minutos de actividade física moderada - como andar rapidamente, 20 a 30 dos quais em actividade vigorosa - como correr), enquanto a maioria dos adultos são suficientemente activos. Estas são as duas principais conclusões de um estudo inédito em Portugal, baseado na análise física (e não em questionários) e realizado pelas cinco universidades públicas de desporto para o Observatório Nacional de Actividade Física e Desporto. Uma destas conclusões é surpreendente se pensarmos, por exemplo, no facto de em Portugal se andar muito de carro e pouco a pé (nós vemos e fazemos isso e as estatísticas resultantes de estudos europeus confirmam), mesmo quando as distâncias a percorrer são pequenas. Um episódio característico e algo anedótico é o de quem se desloca para o ginásio, perto de sua casa ou do seu local de trabalho, ir de carro para depois caminhar na passadeira 20 ou 30 minutos…

Quanto ao facto das crianças e jovens portugueses terem uma actividade inferior ao recomendado, uma das autoras do estudo assinala que são nas regiões do Alentejo e Algarve onde se acentua mais a falta ou diminuição da actividade. Não me surpreende esta afirmação se pensarmos que nestas regiões as infra-estruturas desportivas estão aquém das necessidades e a maioria das que há só começaram a ser erigidas nas últimas duas décadas como foi e é o caso de (na vila…) Grândola. Ora sabe-se que a criação de um estilo de vida saudável e, portanto, activo estabelece-se muito cedo. Está mesmo, de certa forma, influenciado por factores familiares – filhos de pais inactivos (quando novos não tiveram muitas opções desportivas) são potenciais indivíduos sedentários e filhos de pais activos têm maior probabilidade de virem a ser adultos com um estilo de vida activo. É claro que outros factores, de ordem social  e económica, também contribuiram para esta situação de baixa actividade física.

Como é compreensível para que a situação descrita melhore é necessário não só o indispensável investimento em infra-estruturas desportivas como também um eficaz aproveitamento dessas infra-estruturas por parte das escolas e dos clubes desportivos e, por outro lado, que haja entre aquelas entidades e as autarquias uma conjugação de esforços para o aumento da actividade física. Por exemplo, aqui ao lado, em Espanha, as aulas terminam muito mais cedo do que no nosso país, o que leva a que haja mais tempo livre para a prática da actividade física entre os jovens.

Na sequência da publicação das principais conclusões deste estudo, o secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino Dias afirmou “O deporto para a juventude tem sido demasiado vocacionado para o sistema competitivo, que é bom, mas exclui muita gente cada vez que se forma uma equipa”. Infelizmente esta afirmação retrata uma realidade que se verifica nas modalidades desportivas dos clubes e no que concerne ao basquetebol ocorre até com frequência no minibasquete. Basta ver e ler nalguns blogues o que se passa nos convívios, em que os treinadores procurando obter resultados (?) imediatos, que passam por efémeras vitórias, sacrificam os jogadores menos dotados que ficam assim a maior do tempo do jogo no banco. Nos escalões imediatos, em que o factor competição ainda não é transcendente, ocorre o mesmo. É comum ver-se, em equipas que se apresentam com 10 ou 12 jogadores, os treinadores apostarem durante a maior parte do tempo de jogo em 6 ou 7 jogadores. Durante a participação do CAB de Grândola no Torneio Aberto de Infantis vi equipas usarem tais práticas. Recordo-me, por exemplo, do jogo CAB de Grândola – BAC de Almada em que uma das jogadoras da equipa forasteira, por ser alta (1,83 m) e preponderante no jogo da sua equipa, manteve-se em campo durante os 3 últimos períodos (não jogou o primeiro na totalidade por se ter lesionado, sem gravidade, logo no início), mesmo estando visivelmente cansada no último período e havendo colegas suas no banco em melhores condições físicas.

É evidente que ninguém gosta de perder mas há que haver o cuidado de não marginalizar jogadores para não os perder. Os treinadores (muitas vezes pressionados pelos próprios pais que querem resultados que os deixem orgulhosos) sabem, ou deviam saber, que a formação de um atleta passa por várias etapas, com avanços e recuos, e tem uma duração de sensivelmente 10 anos. Esta formação envolve não só o jovem mas também uma forte entourage de apoio (treinador, dirigentes, pais, colegas, etc.). O processo de ensino-aprendizagem deve ser orientado na perspectiva do que será melhor para a criança/jovem e não pelos interesses dos adultos. Como já foi referido por especialistas na área das ciências do desporto, não é possível determinar com precisão o talento de um jovem para o desporto antes da puberdade, pelo que há que investir em todos, de modo a criar condições para que todos, à sua maneira, sejam vencedores e que não haja excluídos. Desta forma também se contribui para o desenvolvimento da modalidade e para a sua visibilidade.

Para quem acompanha de mais perto o basquetebol espanhol, que é actualmente uma potência mundial, sabe que um dos clubes que mais investe na formação de jogadores é o Club Joventut de Badalona que possui um total de 28 equipas de formação (!) das quais só 5 é que são constituídas pelos jogadores mais talentosos e as restantes, as chamadas “Escuela de Basket” albergam meninos e jovens até à idade de cadetes que gostem de jogar basquetebol independentemente da qualidade do seu jogo.

O vídeo que coloquei no topo deste artigo mostra um “prodígio precoce” que muitos treinadores gostariam de ter nas suas equipas, mas que frequentemente desaparecem porque a especialização desportiva precoce não é uma forma eficaz de desenvolver um talento desportivo como aconteceu com Elena Delle Donne cuja história vale a pena ler e reflectir.

Fernando Costa

Wednesday 12 August 2009 07:18


Formação, Estrangeiros e Naturalizados

Blogue de basquetegrandola :Em órbita do Basquetebol, Formação, Estrangeiros e Naturalizados

Com a chegada do Verão muitas das modalidades desportivas viram as suas competições domésticas terminarem. Todavia, tal não significa que a sua actividade tenha parado, uma vez que durante este período estival tem-se assistido à actuação de selecções nacionais nas diferentes categorias como no caso do basquetebol.

As selecções principais de basquetebol, masculina e feminina, actuaram durante os recentes Jogos da Lusofonia com destaques diferentes. A selecção feminina conquistou a medalha de ouro ao passo que a masculina quedou-se pela de bronze após derrota inesperada com Cabo Verde na meia-final e vitória sobre o Brasil no jogo de consolação.

Quando assisti ao jogo entre Portugal e Cabo Verde registei o facto de Portugal contar, nas suas fileiras com jogadores naturalizados oriundos de Cabo Verde, mas que, ao contrário do que sucede com outras selecções congéneres, para além de terem feito a sua formação em clubes portugueses encontram-se plenamente identificados com o país adoptado, neste caso Portugal. Tratam-se de jogadores que engrandecem o nosso basquetebol não só pela mais-valia técnica que emprestam à nossa selecção como também pelo empenho que denotam quando envergam o equipamento nacional.

Os próprios EUA, que são os maiores exportadores de jogadores de basquetebol do planeta, já tiveram jogadores naturalizados a jogarem pela sua selecção como foram os casos de: Patrick Ewing (Jamaica) nos JO de Barcelona em 92; Hakeem Olajuwon (Nigéria) nos JO de Atlanta em 96 e Tim Duncam (Ilhas Virgens) nos JO de Atenas em 04.

Porém, há selecções cujo número de jogadores naturalizados é cada vez mais expressivo, o que acaba por ser um reflexo do que se passa nos respectivos campeonatos onde se assiste a uma invasão de estrangeiros como acontece no campeonato alemão cujo regulamento permite a inscrição de 9 (!) jogadores estrangeiros por equipa…

O regulamento, quanto à utilização de jogadores estrangeiros permitidos por cada clube, no principal campeonato português tem variado e nesta época que findou o limite fixado foi de três o que representou uma redução mínima por clube, em relação à anterior época, mas substancial se atendermos ao conjunto dos clubes. Esta decisão foi, na altura, justificada por um dirigente federativo através do argumento de que "A quantidade obrigava a que a qualidade fosse muito má. Se houver mais rigor na escolha, é evidente que a qualidade de jogo aumenta". Com esta medida indiscutivelmente procurou-se dar mais tempo de jogo ao jogador português, embora duvide que a qualidade aumente repentinamente porque não creio que os clubes portugueses, na sua generalidade, façam ou tenham possibilidade de fazer scouting para encontrarem jogadores com mais qualidade e pouco mais caros do que aqueles que lhes são apresentados pelos seus agentes ou representantes. Há ainda o risco de os clubes “fintarem” a decisão através da naturalização de jogadores estrangeiros que se encontrem em Portugal há já alguns anos como aconteceu aqui ao lado em Espanha com a história do cidadão comunitário e que bastante polémica deu. E desta forma corre-se o risco de haver ainda menos vagas para jogadores portugueses.

Haverá com certeza opiniões divididas sobre esta matéria bastante controversa. Há quem possa argumentar que se os nossos jogadores não jogarem não evoluem, o que é verdade, mas o argumento de que se evolui jogando ou treinando com quem nos é superior também tem todo o seu cabimento. Um exemplo paradigmático do que se acabou de escrever são os casos de algumas jovens promessas portuguesas que representam a selecção de Portugal em categorias de formação e que emigram para Espanha onde o baloncesto é mais competitivo e revela maior qualidade técnica.

As conclusões a tirar são de que é difícil para um jovem vir a tornar-se jogador profissional de basquetebol e de que dificilmente a maioria dos treinadores virá a contribuir para a formação de um jogador de elite.

O facto de os jovens se encontrarem inseridos numa sociedade cada vez mais sedentária, invadida por passatempos e divertimentos tecnológicos que convidam ao imobilismo físico explicará em parte a sua escassa participação no desporto em geral e no basquetebol em particular. Como é sabido da quantidade sai a qualidade, pelo que se torna difícil para qualquer treinador (ou equipa de treinadores), por mais bem formado e informado que esteja, efectuar um trabalho profundo cujos resultados sejam satisfatórios ao fim de uns anos devido ao leque de jovens com quem se trabalha ser bastante limitado. Por outro lado, e pese todo o esforço desenvolvido pelos clubes com o minibasquete, muitas vezes começa-se a trabalhar com jovens que aparecem tarde para a modalidade. Muitos desses jovens surgem após terem experimentado outras modalidades, invariavelmente o futebol, e lembram-se de experimentar o basquetebol quando dão “saltos” no seu crescimento. Começam assim só a praticar com 13/14 anos que são idades em que no escalão correspondente o basquetebol deve começar a tomar um cariz mais competitivo. Desta forma é natural que para certas posições que exigem um trabalho específico e uma prática longa, como poste, haja carência de jogadores e que elas sejam cobertas, de forma satisfatória, por jogadores estrangeiros.

É claro que para um jovem tornar-se um excelente praticante da modalidade, não basta ser bem dotado fisicamente e tecnicamente. Outras qualidades terá que possuir tais como ter uma grande disciplina e capacidade de sacrifício, que são algo que não se ensina embora se possa inculcar, e ser constante nas suas prestações durante os jogos.

Um exemplo de um jogador da actualidade cujo percurso se assemelha um pouco ao acima descrito é o do promissor israelita Lior Eliyahu que no final desta época se transferiu para o Tau Cerâmica, equipa que na próxima época passará a jogar a liga ACB com a denominação de Caja Laboral e de quem se escreveu um artigo interessante de se ler sobre o seu percurso como atleta.

Chegando a este ponto poder-se-ia colocar a seguinte questão: para que é que serve o basquetebol para a maioria dos jovens que o pratica?  Será uma forma de divertimento? Será um processo de formação para outros aspectos da vida? Será um pouco das duas questões anteriores colocadas? As respostas, sejam elas quais forem, passarão, mais uma vez, em grande parte pelo treinador que, como tenho realçado em alguns dos meus artigos anteriores, desempenha um papel fulcral neste processo de ensino da modalidade junto das crianças e jovens.

P.S. Quando acabava de escrever este artigo vi no site da FPB o anuncio de um clinic destinado a treinadores subordinado ao tema "As dificuldades técnicas, tácticas, físicas e mentais que impedem os nossos jovens jogadores de triunfarem no alto rendimento"

Fernando Costa

Thursday 30 July 2009 08:19


Xadrez e Basquetebol... que semelhanças?

Foi durante uma tarde solarenga, no fresco do vão da escada do prédio onde morava, que uns amigos meus ensinaram-me a jogar xadrez. Contava, então, com 12 anos de idade e estava a iniciar os meus primeiros passos (hoje sei que tardios) numa modalidade que, mal imaginava eu, iria praticar durante mais de um quarto de século, a nível federado, e que me iria proporcionar muitas experiências gratificantes (a mais valia do desporto) que tiveram grande importância na minha vida. Recordo-me das dificuldades que tive, quando comecei a jogar a “sério”, de explicar, primeiro aos meus pais, depois aos meus amigos, o meu forte interesse e dedicação pelo xadrez, porque o encaravam apenas como um jogo lúdico e não como uma actividade (para muitos é difícil definir o xadrez como sendo ou um desporto, ou uma ciência ou uma arte) em que valesse a pena investir. O engraçado é que um ano depois, toda a rapaziada da vizinhança já sabia mover as peças e a competição era feroz…

Afastei-me da modalidade com as vicissitudes da vida e eis-me que, ao fim de uns anos, deparo-me com o vídeo que encima este artigo e que foi o rosto da campanha publicitária da NBA para os últimos Playoffs no canal TNT, canal que transmite quase todos os jogos da temporada, sob o lema “O Basquetebol é como uma partida de xadrez”. O xadrez e o basquetebol são comparados visualmente através de atitudes e jogadas de ambos os desportos. No vídeo surgem estrelas da NBA como Kobe Bryant, Lebron James, Dwight Howard, Paul Pierce, Dwayne Wade ou Ray Allen que jogam xadrez com relógio (a ideia é genial), concretamente com 24 segundos que é o tempo de posse de bola que cada equipa dispõe antes de a lançar ao cesto, tudo acompanhado com imagens em paralelo de destacadas jogadas de basquetebol.

Confesso que inicialmente fiquei surpreendido com a ideia da NBA utilizar o xadrez como meio de promoção da excitante prova que organiza, se bem que o xadrez desde há muito seja utilizado pelos agentes da publicidade nas suas campanhas, uma vez que a imagem (errónea) intelectualizada do xadrez confere ao produto ou serviço que promovem o status de intelectual, de opção inteligente.

No entanto, observando bem, diria que entre estas duas modalidades há semelhanças interessantes a realçar e que procurarei mostrar através de alguns conceitos comuns às duas, começando por aquele que considero o mais importante de todos, através duma citação do conceituado treinador de basquetebol, John Wooden, “A defesa é tão importante como o ataque no basquetebol. Mas muitos jogadores preocupam-se mais com o número de pontos que marcam que acabam por esquecer aquele aspecto importante do basquetebol”. Quantos jogos no xadrez já não se perderam devido ao afã de se querer atacar a todo o custo menosprezando as intenções e capacidades do adversário? Eu diria que muitos, especialmente na fase de iniciação. Uma equipa ou jogador que não defenda ou antes, que não saiba defender, muito dificilmente ganhará títulos.

Em ambas as modalidades, em termos estratégicos, o domínio do centro revela-se fundamental. No basquetebol, em relação à área pintada ou “garrafão”, que é o centro do jogo, as equipas que defendem procuram levar o portador da bola para a linha lateral e mantê-lo por ali, ao passo que as equipas que atacam procuram penetrar com a bola e encestar, é o chamado jogo interior. No xadrez a sua importância é de tal modo que quem não o controlar, quer à distância, quer ocupando-o com as suas figuras, raramente consegue vencer um jogo.

O treinador de basquetebol posiciona os seus jogadores no playground de forma a aproveitar ao máximo as qualidades dos seus jogadores em prol do jogo colectivo, porque se é verdade que há jogadores que fazem a diferença, também é verdade que sem a ajuda dos jogadores mais modestos, não conseguiriam fazer sobressair a sua qualidade. O jogador de xadrez coloca as suas peças a trabalhar em harmonia para atingir os seus objectivos porque sabe que a sua peça de combate mais poderosa, a dama ou rainha, só por si não resolve o jogo a seu favor.

A tecnologia da informação desempenha, de igual modo, um papel preponderante na preparação dos jogos. As partidas de xadrez que se disputam num torneio, em qualquer parte do mundo, em poucas horas encontram-se disponíveis para serem vistas e analisadas, quer em termos de importância teórica, quer em termos de preparação de um futuro confronto com determinado oponente. No basquetebol os treinadores, através de gravações ou DVD’s, observam os pontos fortes e fracos bem como as tendências dos jogadores e equipas adversárias para prepararem as suas equipas para os jogos. Assim tanto o xadrezista como o treinador duma equipa poderão utilizar variadas estratégias de jogo que considerem mais apropriadas para os adversários que vão defrontar.

Como acima referi, no basquetebol uma equipa, quando ataca, dispõe de 24 segundos para atirar a bola cesto, mas nem sempre tal propósito é conseguido, devido à acção defensiva da equipa adversária que impede um lançamento na direcção do cesto, o que faz com que equipa atacante perca a posse da bola, revertendo a iniciativa para quem defendia. No xadrez o tempo também tem importância, pois é frequente haver jogos que terminam com a derrota de um jogador, mesmo com posições vitoriosas no tabuleiro, por não conseguir efectuar o número mínimo de lances previstos para determinados períodos do jogo.

Outros aspectos haveriam que a partir dos quais poderíamos fazer outras analogias entre uma modalidade e outra, tais como a posição da ameaça tripla, a condição física, a força mental e outros mais, mas um aspecto em relação ao qual julgo que os treinadores dos escalões de formação do basquetebol devem paulatinamente, tal como no xadrez, procurar ensinar, a par dos fundamentos técnicos da modalidade, será o da estratégia, porque a sua compreensão facilitaria a leitura por parte dos jogadores das nuances que ocorrem durante o jogo e facilitaria a comunicação entre aqueles e o treinador, o que é um factor importante para se alcançar o êxito.

Fernando Costa

Friday 24 July 2009 18:52


O papel dos Pais

Blogue de basquetegrandola :Em órbita do Basquetebol, O papel dos Pais

Terminaram os II Jogos da Lusofonia, um evento multidesportivo que foi uma aposta no sentido de dar dimensão e visibilidade internacional ao desporto dos países envolvidos, especialmente do país organizador, bem como de integrar o mundo lusófono pelo desporto.

Tratou-se de um evento centrado, quer nos espectadores, quer nos competidores e se este último  correspondeu às expectativas, o mesmo já não se pode dizer em relação ao primeiro. Logo desde o início deste evento foi notória a escassa presença do público, mesmo custando cada entrada uma quantia simbólica (5 € ou até menos com campanhas de descontos), havendo mais comunidades imigrantes a apoiar as suas selecções (que espectáculo na final de basquetebol!) do que portugueses a apoiar a equipa nacional.

De acordo com estudos estatísticos, em Portugal a taxa de participação desportiva é muito baixa. O envolvimento dos jovens no desporto é fraco, em especial a participação feminina, e há uma diminuição acentuada da prática desportiva ao longo da vida. Esta escassa participação, cerca de 4% é que competem a nível federado, nas actividades desportivas resulta, obviamente, de valores de cultura física e desportivos enraizados nos hábitos da população, assim como das características socioeconómicas e politicas do nosso país, o que é atestado pelos 42% da nossa população que nunca praticou desporto.

Em Portugal existem três jornais desportivos diários que, para se venderem, pouco ou nada escrevem sobre o desporto em geral, mas escrevem muito sobre as contratações e tricas do mundo do futebol. Assim é compreensível que se assistam a várias situações indesejadas: como a escassa participação do público nos eventos desportivos que não tenham a ver com o futebol ou em que não participem desportistas de elite; como o escasso incentivo da parte dos pais para com os seus filhos no sentido destes praticarem desporto; como o “endeusamento” de Cristiano Ronaldo na sua apresentação como jogador do Real Madrid; como o grosso das verbas destinadas ao desporto serem desviadas para o futebol, em que nos principais campeonatos metade dos jogadores são estrangeiros; como...

Um episódio característico passou-se recentemente com a realização da fase final do Campeonato Nacional de Basquetebol - sub-14, na Torre da Marinha, em que estavam presentes cinco equipas: FC Porto, Ginásio Clube Figueirense, Seixal FC, FC Barreirense e União Sportiva (representante da Região Autónoma dos Açores), estando ausente desta “Final Six” a equipa da Madeira por falta de apoios financeiros para a deslocação ao continente o que privou um conjunto de jovens de um merecido convívio, porventura inesquecível, quando sabemos que o Governo Regional da Madeira suporta gastos desmesurados com o futebol do Marítimo e do Nacional.

No acompanhamento que mantive com a actividade da equipa de basquetebol dos infantis e dos minis do CAB de Grândola nesta época que findou, pude comprovar a escassa presença dos pais, especialmente nos infantis, nos treinos e jogos dos seus filhos, ao contrário do que sucedeu com a equipa dos iniciados, que durante os jogos contaram sempre com a forte presença dos pais, quer em número, quer em apoio como claque, o que teve a sua quota-parte de importância na boa época que fizeram.

As várias condutas nos diferentes tipos de relacionamentos entre pais e filhos são importantes para o desempenho da criança/jovem dentro de uma competição. São muitos os factores que podem exercer influência sobre a criança e o seu rendimento, mas especificamente a influência dos pais é bem significativa, principalmente quando o filho está a iniciar-se no desporto.

O papel dos dirigentes e treinadores assume neste aspecto especial importância. Os dirigentes deveriam, para além de promover estratégias para a captação de jovens atletas, procurar cativar os pais no sentido de estes estarem receptivos para apoiar os filhos na sua prática desportiva, levando-os a que se envolvam mais nos aspectos emotivos, financeiros e funcionais, em suma, levá-los a participar na promoção e no desenvolvimento desportivo dos seus filhos.

Para que haja uma melhor compreensão e gozo, por parte dos pais, com a actividade desportiva dos filhos devem os treinadores, que assumem um papel de grande responsabilidade neste processo formativo de atletas, informarem os pais sobre aspectos que considerem essenciais, como as regras básicas, as destrezas e estratégias da modalidade. Creio que assim muitos pais dariam mais importância a eventuais progressos na aquisição de competências próprias da modalidade pelos seus filhos do que centrarem as suas atenções nos resultados obtidos nas competições (perder ou ganhar). Reconheço e sei que vivendo o nosso desporto da carolice e da disponibilidade de alguns é comum haver dirigentes que negligenciam o seu papel, deixando tudo nas mãos dos treinadores, os mais entusiasmados com o que fazem, que assim vêem a sua missão bem mais sobrecarregada.

E também sei que para nós, como latinos que somos, desde cedo o ganhar ou perder assume uma importância que está fortemente enraizada na nossa cultura, mas mais importante do que vencer, é o esforço e persistência que os jovens atletas colocam e dispendem na sua actividade desportiva. Não esquecer que eles, como nós, os adultos, têm as suas limitações e que superá-las será uma grande vitória.

O link do vídeo que coloquei no fim deste artigo é sobre a relação entre um pai e um filho…o filho disse um dia ao pai que gostaria de participar numa maratona…e a forma como o seu pai aceitou o desafio…nada menos do que participar numa prova de triatlo Ironman…que, para quem não sabe, consiste em nadar 3,86 km, pedalar 180,25 km e correr uma maratona de 42,195 km por esta ordem…e sem qualquer intervalo entre as provas…

http://www.tangle.com/view_video?viewkey=8cf08faca5dd9ea45513

Fernando Costa

Monday 20 July 2009 05:15


A Formação através da Imagem

Decorre no nosso país, até ao próximo dia 19, o maior evento internacional multidesportivo alguma vez realizado por Portugal e que reúne cerca de 1300 atletas e oficiais dos países que pertencem à comunidade de língua portuguesa, à semelhança do que já sucede com os chamados jogos da Commonwealth ou da Francofonia e que tem como objectivo integrar o mundo lusófono pelo desporto. Trata-se da 2ª edição dos Jogos da Lusofonia.

São várias as modalidades em que os atletas se encontram a competir, entre as quais o Basquetebol, cuja competição feminina se realiza no Hockey Club de Sintra e a masculina no Complexo Municipal dos Desportos “Cidade de Almada”, cujos jogos têm estado a ser transmitidos pela RTP.

Através da televisão tenho acompanhado os jogos e, embora aprecie mais os jogos ao vivo, tenho beneficiado, como todos nós, da possibilidade de ver as repetições dos lances, muitos dos quais de diferentes ângulos de visão que as câmaras nos proporcionam, o que nos permite, por exemplo, ajuizar sobre a justeza da decisão do árbitro no julgamento de uma jogada (o que por vezes é ainda difícil) ou sobre a qualidade técnica na execução de determinados movimentos por parte dos jogadores.

Há também a possibilidade de gravar os jogos no videogravador com as vantagens daí inerentes como, por exemplo, a selecção de certas jogadas, por parte dos treinadores, que exemplifiquem alguns conceitos que os quais pretendem transmitir aos seus jogadores ou ainda, como no meu caso pessoal, através da câmara digital, proceder à filmagem de eventos desportivos em que os filhos participam, que assim registamos para mais tarde os revivermos.

Verificamos assim que o desenvolvimento da tecnologia do audiovisual ajuda o ser humano em múltiplas actividades, entre as quais o desporto. Recordo-me que nos princípios da década de oitenta Sven Eriksson, então um treinador revolucionário para a época, treinava a equipa de futebol do Benfica e exigia o máximo empenho dos seus jogadores durante os treinos. Descontente com a aplicação de determinado jogador nos treinos, mandou filmá-lo e entregar a cassete com a gravação em casa daquele. Num dos dias seguintes, Pacheco, que era o nome do jogador, declara para os jornais que entendera perfeitamente o que o treinador queria dele e passou a empenhar-se mais o que se veio a traduzir numa excelente época para si e para o seu clube. O vídeo foi, neste caso, utilizado como ferramenta pedagógica.

No basquetebol o uso do vídeo já há muito que é indispensável. A estatística do jogo, hoje assume um rigor só possível pelo tratamento da imagem proporcionada pelo vídeo, através do computador. Um e outro tornaram-se indissociáveis.

Um dos usos mais frequentes do vídeo por parte dos treinadores que, antes de defrontarem uma equipa adversária, procuram reunir a maior informação possível sobre a mesma, é o da visualização do estilo de jogo do adversário assumindo assim o vídeo um papel primordial.

Também facilmente se compreenderá que o vídeo pode ser um recurso interessante a utilizar pelos treinadores das camadas jovens para o aprimoramento das suas destrezas técnicas porque, como salienta o autor do seguinte artigo “El uso del vídeo en el baloncesto” que encontrei num site espanhol, “se às vezes o olho experimentado do treinador é suficiente para fazer progredir um jogador, seria uma pena não aproveitar o que o vídeo pode aportar ao olho desse mesmo jogador para a sua própria aprendizagem”.

O vídeo assume, pois, hoje em dia um papel importante no basquetebol como veículo de transmissão de conhecimento, de lazer e de promoção, como no caso do vídeo clip colocado no início deste artigo e em que se questiona o leitor se os afundanços são ou não reais.

Fernando Costa

Friday 17 July 2009 17:44


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