Recentemente foram publicadas, na imprensa portuguesa, as conclusões de um estudo do Observatório da Actividade Física e do Desporto sobre a actividade física desenvolvida no nosso país. Assim, de acordo com aquele estudo, as crianças e os adolescentes (entre os 10 e os 17 anos) portugueses têm uma actividade física muito inferior ao recomendado para esta faixa etária (diariamente 60 minutos de actividade física moderada - como andar rapidamente, 20 a 30 dos quais em actividade vigorosa - como correr), enquanto a maioria dos adultos são suficientemente activos. Estas são as duas principais conclusões de um estudo inédito em Portugal, baseado na análise física (e não em questionários) e realizado pelas cinco universidades públicas de desporto para o Observatório Nacional de Actividade Física e Desporto. Uma destas conclusões é surpreendente se pensarmos, por exemplo, no facto de em Portugal se andar muito de carro e pouco a pé (nós vemos e fazemos isso e as estatísticas resultantes de estudos europeus confirmam), mesmo quando as distâncias a percorrer são pequenas. Um episódio característico e algo anedótico é o de quem se desloca para o ginásio, perto de sua casa ou do seu local de trabalho, ir de carro para depois caminhar na passadeira 20 ou 30 minutos…
Quanto ao facto das crianças e jovens portugueses terem uma actividade inferior ao recomendado, uma das autoras do estudo assinala que são nas regiões do Alentejo e Algarve onde se acentua mais a falta ou diminuição da actividade. Não me surpreende esta afirmação se pensarmos que nestas regiões as infra-estruturas desportivas estão aquém das necessidades e a maioria das que há só começaram a ser erigidas nas últimas duas décadas como foi e é o caso de (na vila…) Grândola. Ora sabe-se que a criação de um estilo de vida saudável e, portanto, activo estabelece-se muito cedo. Está mesmo, de certa forma, influenciado por factores familiares – filhos de pais inactivos (quando novos não tiveram muitas opções desportivas) são potenciais indivíduos sedentários e filhos de pais activos têm maior probabilidade de virem a ser adultos com um estilo de vida activo. É claro que outros factores, de ordem social e económica, também contribuiram para esta situação de baixa actividade física.
Como é compreensível para que a situação descrita melhore é necessário não só o indispensável investimento em infra-estruturas desportivas como também um eficaz aproveitamento dessas infra-estruturas por parte das escolas e dos clubes desportivos e, por outro lado, que haja entre aquelas entidades e as autarquias uma conjugação de esforços para o aumento da actividade física. Por exemplo, aqui ao lado, em Espanha, as aulas terminam muito mais cedo do que no nosso país, o que leva a que haja mais tempo livre para a prática da actividade física entre os jovens.
Na sequência da publicação das principais conclusões deste estudo, o secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino Dias afirmou “O deporto para a juventude tem sido demasiado vocacionado para o sistema competitivo, que é bom, mas exclui muita gente cada vez que se forma uma equipa”. Infelizmente esta afirmação retrata uma realidade que se verifica nas modalidades desportivas dos clubes e no que concerne ao basquetebol ocorre até com frequência no minibasquete. Basta ver e ler nalguns blogues o que se passa nos convívios, em que os treinadores procurando obter resultados (?) imediatos, que passam por efémeras vitórias, sacrificam os jogadores menos dotados que ficam assim a maior do tempo do jogo no banco. Nos escalões imediatos, em que o factor competição ainda não é transcendente, ocorre o mesmo. É comum ver-se, em equipas que se apresentam com 10 ou 12 jogadores, os treinadores apostarem durante a maior parte do tempo de jogo em 6 ou 7 jogadores. Durante a participação do CAB de Grândola no Torneio Aberto de Infantis vi equipas usarem tais práticas. Recordo-me, por exemplo, do jogo CAB de Grândola – BAC de Almada em que uma das jogadoras da equipa forasteira, por ser alta (1,83 m) e preponderante no jogo da sua equipa, manteve-se em campo durante os 3 últimos períodos (não jogou o primeiro na totalidade por se ter lesionado, sem gravidade, logo no início), mesmo estando visivelmente cansada no último período e havendo colegas suas no banco em melhores condições físicas.
É evidente que ninguém gosta de perder mas há que haver o cuidado de não marginalizar jogadores para não os perder. Os treinadores (muitas vezes pressionados pelos próprios pais que querem resultados que os deixem orgulhosos) sabem, ou deviam saber, que a formação de um atleta passa por várias etapas, com avanços e recuos, e tem uma duração de sensivelmente 10 anos. Esta formação envolve não só o jovem mas também uma forte entourage de apoio (treinador, dirigentes, pais, colegas, etc.). O processo de ensino-aprendizagem deve ser orientado na perspectiva do que será melhor para a criança/jovem e não pelos interesses dos adultos. Como já foi referido por especialistas na área das ciências do desporto, não é possível determinar com precisão o talento de um jovem para o desporto antes da puberdade, pelo que há que investir em todos, de modo a criar condições para que todos, à sua maneira, sejam vencedores e que não haja excluídos. Desta forma também se contribui para o desenvolvimento da modalidade e para a sua visibilidade.
Para quem acompanha de mais perto o basquetebol espanhol, que é actualmente uma potência mundial, sabe que um dos clubes que mais investe na formação de jogadores é o Club Joventut de Badalona que possui um total de 28 equipas de formação (!) das quais só 5 é que são constituídas pelos jogadores mais talentosos e as restantes, as chamadas “Escuela de Basket” albergam meninos e jovens até à idade de cadetes que gostem de jogar basquetebol independentemente da qualidade do seu jogo.
O vídeo que coloquei no topo deste artigo mostra um “prodígio precoce” que muitos treinadores gostariam de ter nas suas equipas, mas que frequentemente desaparecem porque a especialização desportiva precoce não é uma forma eficaz de desenvolver um talento desportivo como aconteceu com Elena Delle Donne cuja história vale a pena ler e reflectir.
Fernando Costa


